Um dia Lula acordou invocado e ligou pro Bush, sem nenhuma conseqüência.
Silvinha também acordou invocada em um dia de 1971, e criou o Novo.
Entrou em um estúdio de gravação e estilhaçou uma das vacas mais sagradas do chamado cancioneiro nacional, Risque, de Ari Barroso. Janis Joplin pura. Só que nossa. Nem verde nem amarela como pedia a ideologia da época e sim loira, linda e jovem.
(" ...Nelson Motta, que a comparou com Janis Joplin após ouvir a gravação...")
Espremida entre um maridão cafona e uma Jovem Guarda mais ainda, chefiada por um Rei e um Tremendão, com Wanderléa fazendo assim com a mão, pedindo ao Senhor Juiz parar esse casamento, a Jovem Guarda, melosa e ponto de chamar Martinha, uma de suas mais inocentes integrantes, de queijinho de minas, Silvinha Araújo ainda sem o Y no nome, entrou no estúdio de gravação e saiu de lá com um AS/DS ( antes e depois de silvinha ).
Riscou Risque, desconstruiu e reconstruiu a seu modo, e que modo!, a bolerosa música de Ari.
Foi um tempo bom. Elis, no palco, cantava o Novo, Caetano, num sol de quase dezembro, idem, Gilberto Gil, uma rosa e um sorvete na mão, também, - e a deliciosa Rita Lee chutava o pau da barraca do políticamente correto, antes mesmo desse existir, com a sua Música Popular Brasileira e seu Chico Buarque de Holanda tomando Moet et Chandon á beira de uma piscina azul como o céu de sua ( dele) Cuba..
Elis continua cantando cada vez melhor, Rita continua deliciosamente irreverente, Chico Buarque, só molhando os pezinhos no cloro, ainda acha o discurso de Fidel uma coisa tão boa como uma Bucarest bem geladinha, Cae -quem diria - foi parar num filme cantando cucurucucu, e Gilberto Gil desceu tanto que acabou ministro.
Tirando uma ou outra pena do cocar de Carlinhos Brow, gasta e trocada por uma nova antes do global trio elétrico de tantos carnavais comercias, o Novo na MPB foi pro brejo. Ou o brejo, cheio de boquinhas e garrafas foi até Ele, e ainda por cima colocou um chapéu sertanejo de filhos de francisco e netos de sandy y Junior, no Pobre.
Dá tantas saudades de andar sem lenço e sem documento que se roga ao ilustre compositor brasileiro que em vez de shows floralmente agendados e tios e tias sicilianos, ao menos crie o Velho, que era tão bonito - e ainda pode ser, quem sabe? ( Vale tudo para acabar com o desespero velho de guerra).
Aí é que aparece Silvinha, e seus dentes pré geração de aparelhos ortodônticos, graciosamente separados, e, invocada, explode o tédio da fossa, essa invenção barbudinha, magrinha e chatinha da zona sul carioca, de um Rio pré decadência total, uma cidade que sonhava ser única e maravilhosa, e que ainda não sabia ser apenas uma cidade feia construída em meio a um cenário maravilhoso, como bem o disse nosso Marcos Sá Corrêa em memorável crônica.
Risque meu nome de seu caderno, já não suporto o inferno de nosso amor fracassado, lembra um copo de whisky aguado, tomado a goles largos junto com lágrimas, ambos escorrendo de volta ao mundo real pelas olheira fundas de quem sabe não existir o amanhã, e por isso mesmo se afunda no mofo do sofá de veludo vermelho no escuro night club de Copacabana, bairro aonde, lá fora, o sol já torra as calçadas por onde pisam, enérgicos, pés honestos de gente que chama o lugar onde mora de lar.
Para quem gosta de saber onde está pisando aqui está a letra ....
Risque meu nome do seu caderno
Pois não suporto o inferno
Do nosso amor fracassado
Deixe que eu siga novos caminhos
Em busca de outros carinhos
Matemos nosso passado
Mas se algum dia, talvez
A saudade apertar
Não se perturbe
Afogue a saudade
Nos copos de um bar
Creia
Toda quimera se esfuma
Como a beleza da espuma
Que se desmancha na areia
Para quem não gosta, Silvinha : http://www.youtube.com/watch?v=3ZeIIHqd8Ps
Impressionante , essa grava;ão, eu, não conhecia!
Nem essa cantora!
Marco,
Quando você resolve tirar o Lula do seu foco, sai um texto bom pra danado...
Ave, Silvinha.
Parece que algo com o Chico mal resolvido, mas não poderia ser de outra forma.
Fora isso sempre gostei da voz dela e da sua energia.
Tive o prazer de ser assistente de um ensaio fotográfico de Silvinha, feito por Cláudio Gatti para a Istoé Gente em 2002. Era uma excelente pessoa.
Prefiro a versão "bolerosa".
Que texto inspirado, Marco. Arrasou!!!!
Mesmo eu não tendo conhecido Sylvinha Araújo. Ela faleceu?
Clara, ela faleceu em junho de 2008, vitima de câncer de mama.
Que pena. Obrigada, Luiz.
ana, obrigado por ler.
Luiz, agradeço de joelhos.
H.Romeu Pinto, Paulo Belushi, Clara, muchas grácias por todo.
baci a todos,
ma
Não por isso, Marco...
Marco,Risque é legal,tá muito bom,brigada por me lembrar dela
paolarefinett, de nada, disponha.
broder, vinil é lindo, mas larga eles um pouquinho e dá um passeio pelas internets...
tá cheio de mpb massa, sendo feita a.g.o.r.a.
só procê não começar do zero: jam da silva, junio barreto, marina de la riva, mariana aydar
re: sylvinha = fantástico fonograma, gracias
sorry,
esqueci do eduardo agni (do naipe do baden powell)
..na página dele tem os quatro discos pra download
brasofilo, caro,obrigado pelas observações e dicas.
Mas ora, veja só, como era bom o tempo quando os intelectuais não se metiam nesse negócio malcheiroso como a política e contemplavam a beleza e unidade de uma geração que só se dá pela arte. Desculpe a ironia, mas dizer que um cantor que tem ideais políticos ou tentou realizá-los não pode ser considerado meritório esteticamente é um tanto empobrecedor. Caetano e Gil são (e foram) bons a seu modo, embora o primeiro tenha se focado na música e o outro na política. Aliás, a veemência, normalmente vista como figura de linguagem peculiar a discursos políticos, pode ser um elemento estético interessante. Não há porque separar arte de política, assim sumariamente. Fora esse reparo, o texto é instigante, que nos faz ir atrás da música para matar a curiosidade.
Obrigado pelo "instigante", carolus.
abs,
ma
Incrível eu nunca ter escutado essa gravação da Sylvinha. E a gente pensa que sabe muito...
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