Rainer Maria Rilke: "Herbsttag" / Tradução de Nelson Ascher: "Dia de outono"

Sou grato a Nelson Ascher por me ter autorizado a postar aqui a sua belíssima tradução inédita da obra-prima de Rilke, "Herbsttag":

 

Dia de outono

 

Senhor, foi um verão imenso: é hora.
Estende as tuas sombras nos relógios
de sol e solta os ventos prado afora.

Instiga a sazonarem, com dois dias
a mais de sul, as frutas que, tardias,
conduzes rumo à plenitude, e apura,
no vinho denso, a última doçura.

Quem não tem lar já não terá; quem mora
sozinho há de velar e ler sozinho,
escrever longas cartas e, a caminho
de nada, há de trilhar ruas agora,
enquanto as folhas caem em torvelinhoSenhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora.Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura.Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e ler sozinho,escrever longas cartas e, a caminhode nada, há de trilhar ruas agora,enquanto as folhas caem em torvelinho Herbsttag Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß. Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren, und auf den Fluren laß die Winde los. Befiel den letzten Früchten voll zu sein; gib ihnen noch zwei südlichere Tage, dränge sie zur Vollendung hin und jage die letzte Süße in den schweren Wein. Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr. Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben, wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben und wird in den Alleen hin und her unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.